sábado, 17 de agosto de 2019


Hablemos de cine

Chega de Netflix. Ontem, depois de um certo tempo, voltei a frequentar a Cinemateca. Volta a fazer parte da minha rotina, sobretudo nos fins de semana e, mais especialmente ainda, às sextas-feiras, sessão das 7, reservada tradicionalmente a um filme mudo com piano ao vivo. A Cinemateca de Montreal mantém dois pianistas, um deles é muito experiente e talentoso, e lembro de momentos em que o ritmo que ele associava às cenas me comoveu profundamente. O outro, nem tanto. Acho mesmo que ele foi em parte reponsável pelo minha frustração com A Garota com a Caixa de Chapéus, tradução minha para The Girl with a Hatbox, de 1927, dirigida por Boris Barnet.



Embora bastante prolífico, esse realizador russo de origem inglesa ficou de fora da pequena lista de autores canônicos do cinema soviético, seus contemporâneos. A “normalidade” do filme, num certo sentido, sugere um frescor menos pretensioso, mais cotidiano, mais perto do público, inclusive. Além do pianinho, quero conhecer melhor esse cinema. Mas o pianista atrapalhou. Sua trilha, como ele mesmo disse, improvisada na véspera, alinhava trechos com sonoridades “eslavas” – mais uma vez segundo ele – e não marcavam, como é indispensável, o ritmo do filme mesmo. A Garota é uma comédia – mais um indicativo da sua ligação com o público – em que a montagem (afinal, é um filme soviético) é muito presente, isto é, mudanças ágeis de planos, de enquadramentos, além de muitos close-ups. Apoia-se bastante na expressão corporal e, especialmente, nas expressões dos atores em primeiro plano. Anna Sten, que faz Natasha, a dos chapéus, é muito expressiva. Não vou contar a história, pois o filme pode ser visto, numa boa cópia, no Youtube, então o que vale lembrar é a ligação com o cotidiano do período imediatamente pós-Lênin, mas ainda não sufocado pelo stalinismo. Toda a trama se baseia numa situação e sucessão de jeitinhos, como díriamos no Brasil, diante da burocracia já instalada, com a qual todos os personagens vivem naturalmente. Ao mesmo tempo, o protagonismo feminino - não na atuação, mas na vida social – também é evidente. E, como deve ser numa comédia, com surpresas e reviravoltas. Tudo num registro bem simples, ingênuo até, mas não moralista, como seria num filme “ocidental”, da mesma época, para o grande público.

É sempre bom escapar do consagrado institucionalmente, dos lugares-comuns do cinema incensado, cultuado, e procurar o cotidiano, a sociedade, o público mais ou menos revelado em filmes menos pretensiosos, mas não desprovidos das qualidades que fazem do cinema a forma mais completa de expressão simbólica. Não sei onde li que Barnet era muito apreciado por Tarkovsky. Também li que Charlotte et son Jules (1958), do Godard, era uma espécie de homenagem a A Garota. Acho que isso é bem plausível: deem uma olhada no Youtube, onde esse gostoso curta dos primeiros tempos do cineasta francês também está disponível.



E, se uma coisa leva a outra, insiro aqui também um parênteses para sugerir o filme desta semana do canal Le Cinéma Club, o também curta-metragem, também pouco conhecido, de Chantal Akerman, Family Business (1984).

                                 

                             Está em https://www.lecinemaclub.com/?lang=en

O canal, para quem não conhece, é um espaço internacional (com raízes francesas e americanas) de cinefilia, bem no espírito dos cineclubes que usualmente reputo elitistas. Mas esse elitismo, que segmenta o público socialmente em outros sentidos, nunca quis dizer que os filmes escolhidos fossem ruins, muito pelo contrário. E é gratuito, um desdobramento de um certo cineclubismo no ambiente multimidiático; vale a pena acompanhar. Eles disponibilizam um filme, longa ou curta, por uma semana ou duas. Estranha fórmula de guardar a propriedade num espaço que não tem fins lucrativos. Family Business é o filme da vez.

Akerman também tem raízes – distantes - no cineclubismo, neste caso o de Nova York, principalmente através dos Anthology Film Archives – com os irmão Mekas – uma espécie de cinemateca e foro de cinema de vanguarda originária, por sua vez, do Cinema 16, de Amos Vogel, famoso cineclube que agitou Nova York do fim da Guerra (1947) até o início doas anos 60, ponto de origem do moderno cinema de vanguarda daquele país. Family Business, para a cineasta feminista, é uma homenagem ligeira a Chaplin – parece mais Tati, para mim, mas eles são primos, né? Como a referência anterior, Godard, o filme despretensioso é carregado de originalidade, inventividade, e humor, claro.

Godard, Akerman, o cinema soviético consagrado esteticamente, tudo isso remete a um suposto cinema autoral (que Godard ajudou a reinventar, e depois renegou), conceito que, para mim, é mais uma forma ideológica (mas à qual se agrega um valor) da propriedade privada. E uma manifestação do desajuste social que dá origem aos artistas, aos autores, como papel social. De fato, a noção da originalidade como valor, e a autoria, se desenvolvem plenamente só a partir dos albores do capitalismo, na Renascença. Por outro lado, talvez o que concebemos como autor, como cinema de autor, seja, especialmente nas suas expressões mais agudas, mais subjetivas, a forma de cessão mais completa da interpretação, do sentido, da re-criação, para o público.

Alguns caras (de todos os gêneros), em sua individualidade um tanto desajustada, um pouco delirante, talentosa e fundamentalmente egoísta, ocupam indiscutivelmente o papel social de autores. Bom exemplo é o Werner Herzog, um cara um pouco esquisito que cria filme como coelhos, em quantidade industrial. E muitos são incríveis. Mas não é o caso de Lo and Behold – no Brasil, Eis os Delírios do Mundo Conectado, que também vi esses dias na tevê. Um documentário muito pessoal, no sentido negativo que isso tem para mim – e mal costurado: é feito de diversos capítulos de interesse bem variável e conexão nem sempre clara. Percorre o mundo da internet desde suas origens até ilações sobre seu futuro, algumas bem sombrias. Não vale um A Caverna dos Sonhos Esquecidos, dele também, que associa as pinturas rupestres do sítio arqueológico de Lescaux com o cinema. Também é fácil de ver, está no Youtube com legendas em espanhol.



Minha sexta-feira na Cinemateca, porém, foi dupla. Acabei a noite rindo muito com um filme improvável, imperdível – acho que se pode chamar de clássico, hoje – de Ernst Lubistch: Ser ou Não Ser (To Be or Not to Be), de 1942. Filmar uma comédia sobre Hitler, a invasão da Polônia, durante a guerra – os Estados Unidos haviam acabado de entrar realmente no conflito – pareceu a muitos uma coisa de mau gosto, ofensiva até. Mas depois se impôs. Lubistch mistura o horror da guerra, até a Gestapo e seus métodos, com um senso de humor inesperado, irresistível. Não me lembro de ter rido tanto com um suicídio, por exemplo. E tudo numa comédia leve, produzida na fase americana desse incrível diretor em atividade desde o começo do cinema mais narrativo, mudo, até sua morte, em 1947. Que nos deixou tantos filmes incríveis, tantas comédias deliciosas, como Ninotchka, A Loja da Esquina, e esse Ser ou Não Ser (para citar apenas umas poucas). Um remake foi feito em 1983, com Mel Brooks. 

O filme está no Youtube, ou em algum lugar na internet, mas o acesso é controlado. Sabe como é, filme americano... O trailer abaixo não dá ideia da comicidade do filme.





quinta-feira, 15 de agosto de 2019



The Family – Democracia Ameaçada

Netflix, 5 episódios de 50 minutos, em média, cada um. Uma série documental (docussérie?) baseada na investigação e no livro escrito por Jeff Sharlett (The Family: The Secret Fundamentalism at the Heart of American Power) sobre uma organização protestante de direita que permeia o governo americano.

Como narrativa, é bem televisiva, se se pode dizer isso, e americana. Um documentário ficcionalizado e espetaculoso, mas que vai tão fundo quanto possível, acho, na investigação e denúncia de uma organização secreta e subterrânea – na verdade escondida à vista de todos. E cujo tratamento também é muito dirigido a um público americano, não só por ser amplamente majoritário na Netflix, mas porque o filme carrega em si uma contradição básica – para nós, os outros, para a alteridade terceiromundista vista lá de cima – que consiste em criticar uma ideologia extremista a partir de outra ideologia, que naturaliza, toma por normal, a supremacia soft do liberalismo americano de consumo interno, seu aparato cívico-militar - que já lembra bem uma estétca nazista - e seu corolário de intervencionismo e violência internacional.

É notável o trabalho de pesquisa, integrando materiais de arquivo com discursos dos principais nomes da Família – especialmente Doug Coe – e um grande número de participantes e também  de críticos da congregação. A série mostra o processo de cooptação que, como fui verificar no bem informativo verbete da Wikipedia, “Pentecostalismo”, e oomo também é explicado por um pastor crítico do grupo, remete aos princípios fraternais do início do cristianismo, mas também do pentecostalismo, que exige um renascimento provocado por uma violenta humilhação catártica, da qual o sujeito sai “renascido”. 

A Família mantém diversas casas suntuosas - em estilo colonial americano, claro - para várias finalidades: para alojar os jovens “em formação”; para formar as meninas, separadamente, que serão suas esposas subservientes; para reunir e “trabalhar” novos parlamentares que chegam ao Congresso; para hospedar presidentes, ditadores e outros líderes de todo jaez em ambiente do mais luxuoso cristianismo estadunidense. E isso não é ironia, hein, está lá, ao vivo.

Se no Brasil nos familiarizamos com a Teologia da Prosperidade de Edir Macedo e outros, a Família é baseada numa Teologia do Poder. Sua concepção do cristianismo é a do Rei Lobo, como explica a série: Cristo ama os poderosos e através deles deve mudar o mundo. As ovelhas? Bem, elas seguirão o lobo – de medo mesmo. De fato, não importa se esses líderes são pecadores, criminosos, assassinos. Deus Ama a todos e faz sua obra particularmente através de homens imperfeitos. Desde o fundador da seita, anterior ao Doug Coe que a dirigiu nos últimos 50 anos, seus líderes admiram, se espelham e falam disso publicamente, na lealdade inspiradora das organizações nazistas e na invisibilidade eficiente da irmandade da Máfia italiana.

O método da Família é a influência subreptícia, ou como preferem, invisível. Eles chegam nos poderosos só para falar de Cristo, o resto são decorrências. Sobre as quais nunca assumem responsabilidade. Por exemplo: rezaram bastante com os líderes de Uganda, com os quais partilham a concepção da família tradicional; foi pura coincidência que, em seguida, aquele país adotasse a pena de morte para os homossexuais. Caso mais grave do que a da Romênia, em que – após visitas de um senador da seita, apenas para orar pela família – foi proposto um referendo para mudar a constituição, que tratava do casamento como uma “união de cônjuges” (assim mesmo, com “ju” no meio), para “união de homem e mulher”. Um referendo nacional só para isso! Perderam feio, graças a... um povo mais informado.

O instrumento principal desse método de influência é uma grande reunião anual para oração – o Café da Manhã Nacional da Oração (National Prayer Breakfast). Um regabofe enorme, que ninguém sabe quem organiza, quem paga – só que sabem, e é a Família (o que envolve ilegalidades com dinheiro) – mas todos que são convidados vão. Desde 1953, todos os presidentes americanos foram. O que remete à questão da separação entre Igreja e Estado. E, sobretudo, nos permite ver a importância, o papel e o lugar da ideologia na construção da “democracia” que nos vendem como exemplar.

Bom, não sei se isso é spoiler, como gostam de dizer – afinal trata-se de história, de fatos, e não de narrativa -, mas o grande líder da seita, Doug Coe, morreu em 2017; a denúncia de Sharlett foi publicada em 2008 – a série da Netflix foi lançada há uma semana. E tudo continua como sempre foi, exceto que não se conhece o sucessor do invisível Coe. Parece invisível.

Como já disse, a série é mais voltada para a sensibilidade do público americano. Fica, talvez um pouco longa para outros públicos, pelos detalhes e uns tantos personagens que não conhecemos e não nos interessam muito. Mas ela tem grande interesse em outros níveis. O El País noticiou há poucos dias a chegada ao Brasil da organização Capitol Ministries – a que pertence o vice-presidente e pastor americano, Mike Pence (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/12/politica/1565621932_778084.html?fbclid=IwAR1YIjfeNMWNC4TxqXZdd-mgZTDMeqqqGJVCR8YpTUDdqpsRSqE8_lk2kwQ). Parece muito a mesma história, o que torna a série ainda mais interessante de se ver.

Para mim, além ou exatamente por todas essas questões, a série me impactou pelo que não está nela, mas em que ela me fez pensar. Começando por esse denúncia, muito justa e oportuna, como se vê, mas que ao mostrar o exagero fundamentalista, naturaliza a religião mais branda que permeia o Estado – está na famosa constituição americana – e contamina todo o espectro político. Nos Estados Unidos é, e sempre foi, o protestantismo, com suas milhares de denominações. No Brasil, foi historicamente a Igreja Romana, mas o avanço da própria laicidade – que acompanhou a nossa redemocratização – tirando alguns espaços daquela igreja, os abriu para a “terceira onda pentecostal” e sua ascensão à mídia e às instituições políticas (ainda está faltando um ministro do STF evangélico ou ele é invisível, como na série?). Tem sido fácil, pois boa parte dessa ideologia é comum: afora umas querelinhas com a mãe de Cristo, protestantes e católicos são todos filhos do deus único. E há até a Renovação Carismática, uma espécie de Contra Reforma contemporânea que adota os milagres à la carte que distinguem o pentecostalismo para poder sobreviver. No mundo, essa associação da ideologia mais pura com a política, sob a forma de um autoritarismo cristão e fascista, está presente em toda parte, da América Latina à África, da Índia aos países árabes (ainda que tenha que reduzi-los a escombros) e no leste da Europa.

Diante do cristianismo e, em boa medida – a série mostra bem isso – da identificação entre os que creem num só deus, a ideologia revolucionária, emancipadora, se encolheu, se marginalizou para além até dos espaços que lhe foram retirados nos últimos 50 anos. Parece mesmo que as ovelhas seguem os reis lobos, literalmente fantasiados de pastores, e já não se conseguem  organizar. No Brasil, a esquerda se empoou com traços liberais para entrar no baile, mas nunca esteve na lista de convidados. Os partidos ou organizações marxistas – que los hay, los hay... – não estão mais alojados nos ambientes proletários. Ao contrário, lá quem entrou foi o pentecostalismo, o crime e, mais raramente, a polícia. Os marxistas não têm mais  importância real, hoje somos só o bicho papão que se usa, com outros espantalhos, para escandalisar democratas e distrair a patuleia.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019


                                   Desculpem, só achei com legendagem de Portugal

The Great Hack – Nada é privado

“Nada é Privado: O Escândalo da Cambridge Analytica”, uma tradução difícil para o original: The Great Hack. É sobre o caso do roubo de dados pessoais que veio à tona depois da empresa que está no título ter influenciado fortemente a eleição do Trump, nos Estados Unidos, a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia – o famoso Brexit –, a eleição do Bolsonaro e de literalmente dezenas de outros chefes de governo em todo o mundo. Mas, embora construído em torno do caso e dos personagens do caso, o filme visa mais alto e propõe, não exatamente nestes termos, uma visão do estágio do capitalismo em que estamos. 

É a era do controle pessoal generalizado, tão difuso que se torna transparente – como na montagem cinematográfica hollywoodiana. Ninguém percebe. Ninguém se toca (não têm tempo para largar o celular). No entanto, o valor do comércio de dados pessoais como mercadoria, como commodity, já ultrapassou o da movimentação do petróleo, antes rei absoluto. As maiores empresas do mundo são, justamente, as que vivem da utilização e comercialização desses dados: Alphabet, dona do Google e do Youtube; Facebook, que tem o Whatsapp e o Instagram; Apple, Amazon e outras. E o sistema é tão forte e confiante, que a Netflix – uma corporação multinacional baseada nos mesmos métodos – é quem distribui o filme. Mais uma vez sem exatamente esses conceitos, o documentário mostra que sobre essa base econômica ergue-se uma superestrutura ideológica. O acúmulo de dados – processo constante, ininterrupto, de crescimento exponencial – visa finalmente o conhecimento dos traços de personalidade de cada habitante do planeta. Se as técnicas de venda, de publicidade, sempre se basearam no conhecimento do consumidor localizado em segmentos sociais, agora o objetivo alcançável é a manipulação dos impulsos psicológicos dos indivíduos.

A Cambridge Analyctica, uma empresa originalmente voltada para o mercado militar e de segurança, usava esse sistema em técnicas de guerra psicológica e de desestabilização, com clientes como os exércitos inglês e americano, a OTAN e diversas agências de inteligência dos países de língua inglesa, como CIA, NSA, MI-5, etc. Dali para a política, abrindo uma nova divisão, foi um pulo. Juntando as técnicas de guerra, os recursos da publicidade e os novos métodos para isolar e perfilar, a empresa passou a vender seus serviços para pessoas, grupos e partidos de extrema-direita em todo o mundo. Dezenas de países, o filme mostra alguns casos. O Brasil – com o grotesco Bolsonaro - aparece brevemente. 

Eu tinha esquecido um detalhe importante: um dos fundadores e dirigentes da empresa foi Steve Bannon, coordenador da campanha do Trump, criador do saite criptofascista Breitbart News e articulador internacional da ultradireita – sem esquecer sua amizade com a família Bolsonaro. Daí o perfil da clientela da empresa. 

Bom, a “teoria” política do Bannon propõe a destruição social como condição prévia para a criação da “nova ordem” autoritária. O método é a exploração – no plano individual – de pulsões primárias, de medos e ódios, impulsionando posicionamentos políticos. O filme mostra que o método da empresa não consistia em convencer o eleitorado, mas sim em identificar e isolar a franja dos indecisos, dos mais frágeis psicologicamente – conforme revelado por uma insuspeita pesquisa feita, há algum tempo, pelo Facebook. Esse segmento é, então, bombardeado com propaganda, fake news, slogans fáceis de assimilar, através de todos os meios, especialmente pelas mídias ditas sociais, com um direcionamento personalizado. Assim, o alvo a ser convencido, nas eleições americanas, reduzia-se a apenas algumas dezenas de milhares de pessoas situadas em distritos eleitorais definidos, mas que influenciavam decisivamente a composição do colegiado que elege indiretamente o presidente naquele país. Em Trinidad e Tobago, dividido etnicamente entre descendentes de africanos ou de indianos, a empresa se concentrou em desestimular a participação dos jovens afrodescendentes, desacreditando as instituições políticas, e “trabalhando” uma franja de apenas 6% do eleitorado. Até onde o filme mostra, parece que esse sistema deu certo em todas as eleições em que o usaram.

Minha pesquisa acadêmica sobre a formação do público contemporâneo trabalha com esse mesmo fenômeno. O público contemporâneo, ou público do audiovisual, é hoje constituído praticamente pela totalidade da população do planeta. Só poderíamos excluir desse conceito os grandes proprietários dos meios de produção dos veículos, técnicas e processos de comunicação e de representação simbólica. Esses meios são atualmente predominantes no processo de reprodução da vida social, reunindo as maiores empresas e fortunas privadas do mundo. Os meios audiovisuais são hoje o principal elemento no processo de socialização, superando a Escola, a Igreja e possivelmente a própria Família. Essa de certa forma nova e vasta categoria social, o público, define-se não apenas como sendo destituída do acesso aos meios de produção simbólica, predominantes como já disse, mas também porque produz uma nova forma de valor, uma mais-valia simbólica (mas muito concreta), constituída justamente pela apropriação indébita de seus metadados. Esse novo proletariado, o proletariado moderno de Fabio Masala, não é explorado apenas pela mais-valia sobre seu trabalho  mas, adicionalmente, pela subtração e monetização de seus dados pessoais. E isso ocorre sem que os indivíduos precisem fazer o que quer que seja: seus dados são roubados e comercializados simplesmente por possuir – e eventualmente utilizar – os dispositivos audiovisuais: celular (mesmo desligado), tablete, computador, etc.

Mas The Great Hack implica mais que isso também, um controle ideológico crescente dos processos sociais, com capacidade para derrubar governos legítimos, promover ideias e impulsos destrutivos, e eleger chefes insanos. Já vi esse filme. Se passa no Brasil.


Não pedi licença à Laerte por essa tirinha que saiu hoje na Folha, mas acho que ela não se incomoda.

terça-feira, 13 de agosto de 2019



Sintonia

Série brasileira produzida pela Netflix. A produtora é uma Losbragas, que já tinha feito Samantha, outra série para a mesma fornecedora de streaming. A ideia (argumento?) é de Kondzilla, nom de plume do proprietário do portal e do canal de mesmo nome. O portal, com cerca de 1 milhão de inscritos se proclama o maior saite de funk do mundo, e abre espaço para vários MCs do gênero.

E é sobre isso mesmo a série, até agora com 6 episódios de 52 minutos. Primeira temporada que, como a maioria das séries, tem um final possível mas que permite, e até propõe, uma continuação. A narrativa depende da recepção, analizada tão profundamente quanto possível pelos misteriosos algoritmos da Netflix. Aliás, é isso que decide sobre a produção e apresentação, ao público mundial (majoritariamente norteamericano) das séries de todas dessas empresas de streaming. No Brasil virtual, dividido maniqueisticamente mas sem nenhuma organização política e social correspondente, um produto como O Mecanismo, uma dramatização exemplar – no sentido do melodrama – de fatos reais interpretados por um bem sucedido produtor de espetáculos, passou a ser considerada uma traição, um ataque à verdade e aos interesses do povo. Mas era só mais uma série da Netflix, para um público, sei lá, de mais de 70% de norte-americanos. De forma análoga, Democracia em Vertigem, um documentário sem novidades que expressava um ponto de vista um pouco mais progressista – com pretensões de obra autoral – virou obra-prima e libelo de liberdade. Nada disso importa – ou incomoda – a Netflix, que se sente à vontade para distribuir The Great Hack, vibrante documentário sobre a manipulação do público pelos algoritmos, que é justamente a base essencial da sua atividade. Aliás, também não suscitou muita conversa na internet – apesar do Brasil ser um dos casos abordados.

Sintonia conta a história de três amigos de infância, dois rapazes e uma garota, entrando na maioridade e caindo na real da vida. São originários da favela, um pouco edulcorada como um ambiente mais de classe média que outra coisa – e parte das favelas é assim mesmo, ainda mais que os personagens centrais são um filho do dono da venda local, o outro já num estágio avançado de envolvimento com o crime e a menina, menos verossímel nesse sentido, que também tem seu próprio negócio, mas bem precário, de camelô. Dinheiro não é bem um problema nessa favela, é mais uma solução.

Num outro sentido, os personagens evoluem numa atmosfera bem plausível: um busca fama e dinheiro como estrela do funk; outro vai fazendo carreira no crime, e a garota se encontra, também, numa mistura de carreira e de crença numa igreja evangélica. Os diálogos são notáveis, no sentido de que expressam um registro da língua brasileira que constitui um verdadeiro dialeto, possivelmente em grande parte incompreensível por alguém menos antenado. O espectador não pode moscar. Como toda gíria, de maneira geral essa linguagem vem das cadeias, do crime, e é bem machista, homofóbica, expressando um moralismo bem senso comum. Ao mesmo tempo, carrega uns valores meio desvirtuados de solidariedade “de classe” – mas essa classe é uma corporação de bandidos muito cruéis. A série, claro, passa um pouco de verniz nessa história e, especialmente a garota, é uma mulher vigorosa e autônoma, o que, afinal, pode ser: acontece cada vez mais. Mas inteiramente dentro do sistema: ela passa de uma mentalidade empreendora, de mascate, à busca de sucesso pela instituição religiosa (e não pela religião propriamente).

A música de Sintonia vai mais na linha do funk ostentação, mas mistura a vida da favela, referências ao crime, refletindo os mesmos valores da linguagem do cotidiano dos personagens. Não sei a qual distância devo atribuir minha total incompatibilidade com esse tipo de música: de geração (só conheci o funk brasileiro depois de velho) ou de formação (não consigo gostar da batida repetida e das letras simplistas e reacionárias).

O que mais me tocou na série foi – considerando as fórmulas melodramáticas a que me referi mais acima e que sempre constituíram o elemento de atração do público audiovisual – essa expressão de valores e comportamentos que consegue em boa medida retratar o ambiente mais popular, majoritário, da juventude brasileira hoje. Massacrada e massificada, ela vive no meio de uma violência generalizada e naturalizada, que oferece um dos caminhos possíveis, o crime. Num outro campo – que se enraíza nessa mesma violência e desgraça para progredir – a religião, espaço de fuga e alienação para a maioria, rota para o sucesso e a riqueza para os mais empreendedores. A terceira forma de alienação é o sonho, o “sonho brasileiro” de ficar rico e famoso com a música ou o futebol. Todas essas alternativas só conduzem a um mundo pior, sem questionar a violência, mas adaptando-se a ela; sem questionar a alienação, mas louvando-a em bailes e cânticos. Reproduzindo a sua própria exploração.

Sintonia, que se refere a uma forma de omertà no crime organizado brasileiro, é também a marca da amizade inquebrantável dos três jovens unidos em meio a essa dura realidade. Na verdade, também vejo uma sintonia notável entre esse universo dramático e o governo do energúmeno Bolsonaro. O estado das coisas no Brasil hoje é um efeito dessa repetição sem fim de becos sem saída produzidos pela miséria – material e espiritual – de uma cultura de exploração voraz do povo, de violência endêmica marcada até hoje pelos sinais da escravidão. Essa forma de fascismo à brasileira, evangélico e militar, que hoje ocupa Brasília, é outro aspecto da nossa realidade que a série, evidentemente, não abarca. É só uma série da Netflix, tá ligado?

Extatísticas, à guisa de apresentação

O título é para marcar os momentos estatisticamente mais prazenteiros que aborrecidos que passei na frente de alguma tela. Principalmente na tevê, mas bastante no cinema também, e alguma coisa no computador. No celular, francamente, não consigo. Deve ser o século, com o qual ainda não me identifico totalmente.

Cálculos moderados me levaram à conclusão de que, até esta altura dos acontecimentos, assisti a uns 40.000 filmes, entre longas-metragens, episódios de seriados e, mais recentemente, séries de tevê. Isso daria uns 1.667 dias ou 4 anos e 7 meses, cerca de 7% do meu tempo de vida. E olha que dei muito desconto, este é um cálculo bem modesto.

Impossível guardar tudo isso na memória, claro. Mas, de uma forma ou de outra, certamente contribuiu para formar um tanto da minha personalidade , mais ainda das minhas convicções – boa parte em oposição ao que vi - e muito dos meus conhecimentos, que não são grande coisa.

Continuo mantendo mais ou menos a mesma MTD (média de tela diária). Então, pensei em guardar alguma informação, sensação e comentários. Para uma futura avaliação, quem sabe, minha mesmo. Ou para os comentários de algum vedor (está no dicionário), se houver.

Não serão análises nem críticas, mas sim observações de caráter mais pessoal, muitas vezes digressivas. Para escândalo de muitos, continuo dizendo que não curto muito análises de filmes, que me parecem algo como explicar uma piada. A crítica também, com seu método gustativo, subjetivo. As duas coisas têm interesse, valor e lugar, mas não são a minha praia. Este blogue vai ser, talvez, um discurso, um debate cineclubista individual – o que é uma contradição – que é onde me situo há um tempinho. Diferente dos outros dois métodos – e os três se aparentam – o debate cineclubista se constitui de avaliações pessoais da relação do filme (ou do produto audiovisual em sentido mais amplo) com a realidade, com o nosso tempo e lugar.

Minhas fontes, agora, são meio exíguas: não tenho como ir muito ao cinema, que é muito caro, nem posso assinar muita coisa na tevê, pela mesma razão. Assim, alimentarei este blogue – como se escreve em bom português – principalmente com os filmes que vejo ou revejo na Cinemateca de Montreal e com os filmes e séries que assisto em casa, na Netflix. Alguma coisa sempre surge também das minhas pesquisas e encontro nas fontes mais usuais da Internet, como o Youtube e canais especializados, assim como saites (aportuguesamento do site americano, que não se pronuncia em português) e canais de produtores de conteúdo na internet.

Em Montreal, agosto de 2019.