Hablemos de cine
Chega de Netflix. Ontem, depois de um certo tempo, voltei a frequentar a
Cinemateca. Volta a fazer parte da minha rotina, sobretudo nos fins de semana
e, mais especialmente ainda, às sextas-feiras, sessão das 7, reservada
tradicionalmente a um filme mudo com piano ao vivo. A Cinemateca de Montreal
mantém dois pianistas, um deles é muito experiente e talentoso, e lembro de
momentos em que o ritmo que ele associava às cenas me comoveu profundamente. O
outro, nem tanto. Acho mesmo que ele foi em parte reponsável pelo minha
frustração com A Garota com a Caixa de
Chapéus, tradução minha para The Girl
with a Hatbox, de 1927, dirigida por Boris Barnet.
Embora bastante prolífico, esse realizador russo de
origem inglesa ficou de fora da pequena lista de autores canônicos do cinema
soviético, seus contemporâneos. A “normalidade” do filme, num certo sentido,
sugere um frescor menos pretensioso, mais cotidiano, mais perto do público, inclusive.
Além do pianinho, quero conhecer melhor esse cinema. Mas o pianista atrapalhou.
Sua trilha, como ele mesmo disse, improvisada na véspera, alinhava trechos com
sonoridades “eslavas” – mais uma vez segundo ele – e não marcavam, como é
indispensável, o ritmo do filme mesmo. A
Garota é uma comédia – mais um indicativo da sua ligação com o público – em
que a montagem (afinal, é um filme soviético) é muito presente, isto é, mudanças
ágeis de planos, de enquadramentos, além de muitos close-ups. Apoia-se bastante na expressão corporal e, especialmente,
nas expressões dos atores em primeiro plano. Anna Sten, que faz Natasha, a dos
chapéus, é muito expressiva. Não vou contar a história, pois o filme pode ser
visto, numa boa cópia, no Youtube, então o que vale lembrar é a ligação com o
cotidiano do período imediatamente pós-Lênin, mas ainda não sufocado pelo
stalinismo. Toda a trama se baseia numa situação e sucessão de jeitinhos, como
díriamos no Brasil, diante da burocracia já instalada, com a qual todos os personagens
vivem naturalmente. Ao mesmo tempo, o protagonismo feminino - não na atuação,
mas na vida social – também é evidente. E, como deve ser numa comédia, com
surpresas e reviravoltas. Tudo num registro bem simples, ingênuo até, mas não
moralista, como seria num filme “ocidental”, da mesma época, para o grande
público.
É sempre bom escapar do consagrado institucionalmente,
dos lugares-comuns do cinema incensado, cultuado, e procurar o cotidiano, a
sociedade, o público mais ou menos revelado em filmes menos pretensiosos, mas
não desprovidos das qualidades que fazem do cinema a forma mais completa de
expressão simbólica. Não sei onde li que Barnet era muito apreciado por Tarkovsky.
Também li que Charlotte et son Jules
(1958), do Godard, era uma espécie de homenagem a A Garota. Acho que isso é bem plausível: deem uma olhada no
Youtube, onde esse gostoso curta dos primeiros tempos do cineasta francês
também está disponível.
E, se uma coisa leva a outra, insiro aqui também um
parênteses para sugerir o filme desta semana do canal Le Cinéma Club, o também
curta-metragem, também pouco conhecido, de Chantal Akerman, Family Business (1984).

O canal, para quem não conhece, é um espaço
internacional (com raízes francesas e americanas) de cinefilia, bem no espírito
dos cineclubes que usualmente reputo elitistas. Mas esse elitismo, que segmenta
o público socialmente em outros sentidos, nunca quis dizer que os filmes
escolhidos fossem ruins, muito pelo contrário. E é gratuito, um desdobramento
de um certo cineclubismo no ambiente multimidiático; vale a pena acompanhar. Eles
disponibilizam um filme, longa ou curta, por uma semana ou duas. Estranha fórmula
de guardar a propriedade num espaço que não tem fins lucrativos. Family Business é o filme da vez.
Akerman também tem raízes – distantes - no
cineclubismo, neste caso o de Nova York, principalmente através dos Anthology Film Archives – com os irmão
Mekas – uma espécie de cinemateca e foro de cinema de vanguarda originária, por
sua vez, do Cinema 16, de Amos Vogel, famoso cineclube que agitou Nova York do
fim da Guerra (1947) até o início doas anos 60, ponto de origem do moderno
cinema de vanguarda daquele país. Family
Business, para a cineasta feminista, é uma homenagem ligeira a Chaplin –
parece mais Tati, para mim, mas eles são primos, né? Como a referência
anterior, Godard, o filme despretensioso é carregado de originalidade,
inventividade, e humor, claro.
Godard, Akerman, o cinema soviético consagrado
esteticamente, tudo isso remete a um suposto cinema autoral (que Godard ajudou a
reinventar, e depois renegou), conceito que, para mim, é mais uma forma
ideológica (mas à qual se agrega um valor) da propriedade privada. E uma manifestação
do desajuste social que dá origem aos artistas, aos autores, como papel social.
De fato, a noção da originalidade como valor, e a autoria, se desenvolvem plenamente
só a partir dos albores do capitalismo, na Renascença. Por outro lado, talvez o
que concebemos como autor, como cinema de autor, seja, especialmente nas suas
expressões mais agudas, mais subjetivas, a forma de cessão mais completa da
interpretação, do sentido, da re-criação, para o público.
Alguns caras (de todos os gêneros), em sua
individualidade um tanto desajustada, um pouco delirante, talentosa e fundamentalmente
egoísta, ocupam indiscutivelmente o papel social de autores. Bom exemplo é o
Werner Herzog, um cara um pouco esquisito que cria filme como coelhos, em
quantidade industrial. E muitos são incríveis. Mas não é o caso de Lo and Behold – no Brasil, Eis os Delírios do Mundo Conectado, que
também vi esses dias na tevê. Um documentário muito pessoal, no sentido
negativo que isso tem para mim – e mal costurado: é feito de diversos capítulos
de interesse bem variável e conexão nem sempre clara. Percorre o mundo da
internet desde suas origens até ilações sobre seu futuro, algumas bem sombrias.
Não vale um A Caverna dos Sonhos
Esquecidos, dele também, que associa as pinturas rupestres do sítio
arqueológico de Lescaux com o cinema. Também é fácil de ver, está no Youtube
com legendas em espanhol.
Minha sexta-feira na Cinemateca, porém, foi dupla.
Acabei a noite rindo muito com um filme improvável, imperdível – acho que se
pode chamar de clássico, hoje – de Ernst Lubistch: Ser ou Não Ser (To Be or Not
to Be), de 1942. Filmar uma comédia sobre Hitler, a invasão da Polônia,
durante a guerra – os Estados Unidos haviam acabado de entrar realmente no
conflito – pareceu a muitos uma coisa de mau gosto, ofensiva até. Mas depois se
impôs. Lubistch mistura o horror da guerra, até a Gestapo e seus métodos, com
um senso de humor inesperado, irresistível. Não me lembro de ter rido tanto com
um suicídio, por exemplo. E tudo numa comédia leve, produzida na fase americana
desse incrível diretor em atividade desde o começo do cinema mais narrativo,
mudo, até sua morte, em 1947. Que nos deixou tantos filmes incríveis, tantas
comédias deliciosas, como Ninotchka, A Loja da Esquina, e esse Ser ou Não Ser (para citar apenas umas
poucas). Um remake foi feito em 1983, com Mel Brooks.
O filme está no Youtube, ou em algum lugar na internet, mas o acesso é controlado. Sabe como é, filme americano... O trailer abaixo não dá ideia da comicidade do filme.
O filme está no Youtube, ou em algum lugar na internet, mas o acesso é controlado. Sabe como é, filme americano... O trailer abaixo não dá ideia da comicidade do filme.
