Desculpem, só achei com legendagem de Portugal
The Great Hack – Nada é privado
“Nada é Privado: O Escândalo da
Cambridge Analytica”, uma tradução difícil para o
original: The Great Hack. É sobre o caso do roubo de dados
pessoais que veio à tona depois da empresa que está no título ter influenciado
fortemente a eleição do Trump, nos Estados Unidos, a saída da Inglaterra da
Comunidade Europeia – o famoso Brexit –, a eleição do Bolsonaro e de literalmente
dezenas de outros chefes de governo em todo o mundo. Mas, embora construído em
torno do caso e dos personagens do caso, o filme visa mais alto e propõe, não
exatamente nestes termos, uma visão do estágio do capitalismo em que
estamos.
É a era do controle pessoal
generalizado, tão difuso que se torna transparente – como na montagem
cinematográfica hollywoodiana. Ninguém percebe. Ninguém se toca (não têm tempo
para largar o celular). No entanto, o valor do comércio de dados pessoais como
mercadoria, como commodity, já ultrapassou o da movimentação do
petróleo, antes rei absoluto. As maiores empresas do mundo são, justamente, as
que vivem da utilização e comercialização desses dados: Alphabet, dona do
Google e do Youtube; Facebook, que tem o Whatsapp e o Instagram; Apple, Amazon
e outras. E o sistema é tão forte e confiante, que a Netflix – uma corporação
multinacional baseada nos mesmos métodos – é quem distribui o filme. Mais uma
vez sem exatamente esses conceitos, o documentário mostra que sobre essa base
econômica ergue-se uma superestrutura ideológica. O acúmulo de dados – processo
constante, ininterrupto, de crescimento exponencial – visa finalmente o
conhecimento dos traços de personalidade de cada habitante do planeta. Se as
técnicas de venda, de publicidade, sempre se basearam no conhecimento do
consumidor localizado em segmentos sociais, agora o objetivo alcançável é a
manipulação dos impulsos psicológicos dos indivíduos.
A Cambridge Analyctica, uma empresa
originalmente voltada para o mercado militar e de segurança, usava esse sistema
em técnicas de guerra psicológica e de desestabilização, com clientes como os
exércitos inglês e americano, a OTAN e diversas agências de inteligência dos
países de língua inglesa, como CIA, NSA, MI-5, etc. Dali para a política,
abrindo uma nova divisão, foi um pulo. Juntando as técnicas de guerra, os
recursos da publicidade e os novos métodos para isolar e perfilar, a empresa
passou a vender seus serviços para pessoas, grupos e partidos de
extrema-direita em todo o mundo. Dezenas de países, o filme mostra alguns
casos. O Brasil – com o grotesco Bolsonaro - aparece brevemente.
Eu tinha esquecido um detalhe
importante: um dos fundadores e dirigentes da empresa foi Steve Bannon,
coordenador da campanha do Trump, criador do saite criptofascista Breitbart
News e articulador internacional da ultradireita – sem esquecer sua amizade com
a família Bolsonaro. Daí o perfil da clientela da empresa.
Bom, a “teoria” política do Bannon
propõe a destruição social como condição prévia para a criação da “nova ordem”
autoritária. O método é a exploração – no plano individual – de pulsões
primárias, de medos e ódios, impulsionando posicionamentos políticos. O filme
mostra que o método da empresa não consistia em convencer o eleitorado, mas sim
em identificar e isolar a franja dos indecisos, dos mais frágeis
psicologicamente – conforme revelado por uma insuspeita pesquisa feita, há
algum tempo, pelo Facebook. Esse segmento é, então, bombardeado com
propaganda, fake news, slogans fáceis de assimilar, através de
todos os meios, especialmente pelas mídias ditas sociais, com um direcionamento
personalizado. Assim, o alvo a ser convencido, nas eleições americanas,
reduzia-se a apenas algumas dezenas de milhares de pessoas situadas em distritos
eleitorais definidos, mas que influenciavam decisivamente a composição do
colegiado que elege indiretamente o presidente naquele país. Em Trinidad e
Tobago, dividido etnicamente entre descendentes de africanos ou de indianos, a
empresa se concentrou em desestimular a participação dos jovens
afrodescendentes, desacreditando as instituições políticas, e “trabalhando” uma
franja de apenas 6% do eleitorado. Até onde o filme mostra, parece que esse
sistema deu certo em todas as eleições em que o usaram.
Minha pesquisa acadêmica sobre a
formação do público contemporâneo trabalha com esse mesmo fenômeno. O público
contemporâneo, ou público do audiovisual, é hoje constituído praticamente pela
totalidade da população do planeta. Só poderíamos excluir desse conceito os
grandes proprietários dos meios de produção dos veículos, técnicas e processos
de comunicação e de representação simbólica. Esses meios são atualmente predominantes
no processo de reprodução da vida social, reunindo as maiores empresas e fortunas
privadas do mundo. Os meios audiovisuais são hoje o principal elemento no
processo de socialização, superando a Escola, a Igreja e possivelmente a
própria Família. Essa de certa forma nova e vasta categoria social, o público,
define-se não apenas como sendo destituída do acesso aos meios de produção
simbólica, predominantes como já disse, mas também porque produz uma nova forma
de valor, uma mais-valia simbólica (mas muito concreta), constituída justamente
pela apropriação indébita de seus metadados. Esse novo proletariado, o proletariado moderno de Fabio Masala,
não é explorado apenas pela mais-valia sobre seu trabalho mas, adicionalmente, pela subtração e
monetização de seus dados pessoais. E isso ocorre sem que os indivíduos
precisem fazer o que quer que seja: seus dados são roubados e comercializados
simplesmente por possuir – e eventualmente utilizar – os dispositivos
audiovisuais: celular (mesmo desligado), tablete, computador, etc.
Mas The
Great Hack implica mais que isso também, um controle ideológico crescente
dos processos sociais, com capacidade para derrubar governos legítimos,
promover ideias e impulsos destrutivos, e eleger chefes insanos. Já vi esse
filme. Se passa no Brasil.
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| Não pedi licença à Laerte por essa tirinha que saiu hoje na Folha, mas acho que ela não se incomoda. |

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