quarta-feira, 14 de agosto de 2019


                                   Desculpem, só achei com legendagem de Portugal

The Great Hack – Nada é privado

“Nada é Privado: O Escândalo da Cambridge Analytica”, uma tradução difícil para o original: The Great Hack. É sobre o caso do roubo de dados pessoais que veio à tona depois da empresa que está no título ter influenciado fortemente a eleição do Trump, nos Estados Unidos, a saída da Inglaterra da Comunidade Europeia – o famoso Brexit –, a eleição do Bolsonaro e de literalmente dezenas de outros chefes de governo em todo o mundo. Mas, embora construído em torno do caso e dos personagens do caso, o filme visa mais alto e propõe, não exatamente nestes termos, uma visão do estágio do capitalismo em que estamos. 

É a era do controle pessoal generalizado, tão difuso que se torna transparente – como na montagem cinematográfica hollywoodiana. Ninguém percebe. Ninguém se toca (não têm tempo para largar o celular). No entanto, o valor do comércio de dados pessoais como mercadoria, como commodity, já ultrapassou o da movimentação do petróleo, antes rei absoluto. As maiores empresas do mundo são, justamente, as que vivem da utilização e comercialização desses dados: Alphabet, dona do Google e do Youtube; Facebook, que tem o Whatsapp e o Instagram; Apple, Amazon e outras. E o sistema é tão forte e confiante, que a Netflix – uma corporação multinacional baseada nos mesmos métodos – é quem distribui o filme. Mais uma vez sem exatamente esses conceitos, o documentário mostra que sobre essa base econômica ergue-se uma superestrutura ideológica. O acúmulo de dados – processo constante, ininterrupto, de crescimento exponencial – visa finalmente o conhecimento dos traços de personalidade de cada habitante do planeta. Se as técnicas de venda, de publicidade, sempre se basearam no conhecimento do consumidor localizado em segmentos sociais, agora o objetivo alcançável é a manipulação dos impulsos psicológicos dos indivíduos.

A Cambridge Analyctica, uma empresa originalmente voltada para o mercado militar e de segurança, usava esse sistema em técnicas de guerra psicológica e de desestabilização, com clientes como os exércitos inglês e americano, a OTAN e diversas agências de inteligência dos países de língua inglesa, como CIA, NSA, MI-5, etc. Dali para a política, abrindo uma nova divisão, foi um pulo. Juntando as técnicas de guerra, os recursos da publicidade e os novos métodos para isolar e perfilar, a empresa passou a vender seus serviços para pessoas, grupos e partidos de extrema-direita em todo o mundo. Dezenas de países, o filme mostra alguns casos. O Brasil – com o grotesco Bolsonaro - aparece brevemente. 

Eu tinha esquecido um detalhe importante: um dos fundadores e dirigentes da empresa foi Steve Bannon, coordenador da campanha do Trump, criador do saite criptofascista Breitbart News e articulador internacional da ultradireita – sem esquecer sua amizade com a família Bolsonaro. Daí o perfil da clientela da empresa. 

Bom, a “teoria” política do Bannon propõe a destruição social como condição prévia para a criação da “nova ordem” autoritária. O método é a exploração – no plano individual – de pulsões primárias, de medos e ódios, impulsionando posicionamentos políticos. O filme mostra que o método da empresa não consistia em convencer o eleitorado, mas sim em identificar e isolar a franja dos indecisos, dos mais frágeis psicologicamente – conforme revelado por uma insuspeita pesquisa feita, há algum tempo, pelo Facebook. Esse segmento é, então, bombardeado com propaganda, fake news, slogans fáceis de assimilar, através de todos os meios, especialmente pelas mídias ditas sociais, com um direcionamento personalizado. Assim, o alvo a ser convencido, nas eleições americanas, reduzia-se a apenas algumas dezenas de milhares de pessoas situadas em distritos eleitorais definidos, mas que influenciavam decisivamente a composição do colegiado que elege indiretamente o presidente naquele país. Em Trinidad e Tobago, dividido etnicamente entre descendentes de africanos ou de indianos, a empresa se concentrou em desestimular a participação dos jovens afrodescendentes, desacreditando as instituições políticas, e “trabalhando” uma franja de apenas 6% do eleitorado. Até onde o filme mostra, parece que esse sistema deu certo em todas as eleições em que o usaram.

Minha pesquisa acadêmica sobre a formação do público contemporâneo trabalha com esse mesmo fenômeno. O público contemporâneo, ou público do audiovisual, é hoje constituído praticamente pela totalidade da população do planeta. Só poderíamos excluir desse conceito os grandes proprietários dos meios de produção dos veículos, técnicas e processos de comunicação e de representação simbólica. Esses meios são atualmente predominantes no processo de reprodução da vida social, reunindo as maiores empresas e fortunas privadas do mundo. Os meios audiovisuais são hoje o principal elemento no processo de socialização, superando a Escola, a Igreja e possivelmente a própria Família. Essa de certa forma nova e vasta categoria social, o público, define-se não apenas como sendo destituída do acesso aos meios de produção simbólica, predominantes como já disse, mas também porque produz uma nova forma de valor, uma mais-valia simbólica (mas muito concreta), constituída justamente pela apropriação indébita de seus metadados. Esse novo proletariado, o proletariado moderno de Fabio Masala, não é explorado apenas pela mais-valia sobre seu trabalho  mas, adicionalmente, pela subtração e monetização de seus dados pessoais. E isso ocorre sem que os indivíduos precisem fazer o que quer que seja: seus dados são roubados e comercializados simplesmente por possuir – e eventualmente utilizar – os dispositivos audiovisuais: celular (mesmo desligado), tablete, computador, etc.

Mas The Great Hack implica mais que isso também, um controle ideológico crescente dos processos sociais, com capacidade para derrubar governos legítimos, promover ideias e impulsos destrutivos, e eleger chefes insanos. Já vi esse filme. Se passa no Brasil.


Não pedi licença à Laerte por essa tirinha que saiu hoje na Folha, mas acho que ela não se incomoda.

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