quinta-feira, 15 de agosto de 2019



The Family – Democracia Ameaçada

Netflix, 5 episódios de 50 minutos, em média, cada um. Uma série documental (docussérie?) baseada na investigação e no livro escrito por Jeff Sharlett (The Family: The Secret Fundamentalism at the Heart of American Power) sobre uma organização protestante de direita que permeia o governo americano.

Como narrativa, é bem televisiva, se se pode dizer isso, e americana. Um documentário ficcionalizado e espetaculoso, mas que vai tão fundo quanto possível, acho, na investigação e denúncia de uma organização secreta e subterrânea – na verdade escondida à vista de todos. E cujo tratamento também é muito dirigido a um público americano, não só por ser amplamente majoritário na Netflix, mas porque o filme carrega em si uma contradição básica – para nós, os outros, para a alteridade terceiromundista vista lá de cima – que consiste em criticar uma ideologia extremista a partir de outra ideologia, que naturaliza, toma por normal, a supremacia soft do liberalismo americano de consumo interno, seu aparato cívico-militar - que já lembra bem uma estétca nazista - e seu corolário de intervencionismo e violência internacional.

É notável o trabalho de pesquisa, integrando materiais de arquivo com discursos dos principais nomes da Família – especialmente Doug Coe – e um grande número de participantes e também  de críticos da congregação. A série mostra o processo de cooptação que, como fui verificar no bem informativo verbete da Wikipedia, “Pentecostalismo”, e oomo também é explicado por um pastor crítico do grupo, remete aos princípios fraternais do início do cristianismo, mas também do pentecostalismo, que exige um renascimento provocado por uma violenta humilhação catártica, da qual o sujeito sai “renascido”. 

A Família mantém diversas casas suntuosas - em estilo colonial americano, claro - para várias finalidades: para alojar os jovens “em formação”; para formar as meninas, separadamente, que serão suas esposas subservientes; para reunir e “trabalhar” novos parlamentares que chegam ao Congresso; para hospedar presidentes, ditadores e outros líderes de todo jaez em ambiente do mais luxuoso cristianismo estadunidense. E isso não é ironia, hein, está lá, ao vivo.

Se no Brasil nos familiarizamos com a Teologia da Prosperidade de Edir Macedo e outros, a Família é baseada numa Teologia do Poder. Sua concepção do cristianismo é a do Rei Lobo, como explica a série: Cristo ama os poderosos e através deles deve mudar o mundo. As ovelhas? Bem, elas seguirão o lobo – de medo mesmo. De fato, não importa se esses líderes são pecadores, criminosos, assassinos. Deus Ama a todos e faz sua obra particularmente através de homens imperfeitos. Desde o fundador da seita, anterior ao Doug Coe que a dirigiu nos últimos 50 anos, seus líderes admiram, se espelham e falam disso publicamente, na lealdade inspiradora das organizações nazistas e na invisibilidade eficiente da irmandade da Máfia italiana.

O método da Família é a influência subreptícia, ou como preferem, invisível. Eles chegam nos poderosos só para falar de Cristo, o resto são decorrências. Sobre as quais nunca assumem responsabilidade. Por exemplo: rezaram bastante com os líderes de Uganda, com os quais partilham a concepção da família tradicional; foi pura coincidência que, em seguida, aquele país adotasse a pena de morte para os homossexuais. Caso mais grave do que a da Romênia, em que – após visitas de um senador da seita, apenas para orar pela família – foi proposto um referendo para mudar a constituição, que tratava do casamento como uma “união de cônjuges” (assim mesmo, com “ju” no meio), para “união de homem e mulher”. Um referendo nacional só para isso! Perderam feio, graças a... um povo mais informado.

O instrumento principal desse método de influência é uma grande reunião anual para oração – o Café da Manhã Nacional da Oração (National Prayer Breakfast). Um regabofe enorme, que ninguém sabe quem organiza, quem paga – só que sabem, e é a Família (o que envolve ilegalidades com dinheiro) – mas todos que são convidados vão. Desde 1953, todos os presidentes americanos foram. O que remete à questão da separação entre Igreja e Estado. E, sobretudo, nos permite ver a importância, o papel e o lugar da ideologia na construção da “democracia” que nos vendem como exemplar.

Bom, não sei se isso é spoiler, como gostam de dizer – afinal trata-se de história, de fatos, e não de narrativa -, mas o grande líder da seita, Doug Coe, morreu em 2017; a denúncia de Sharlett foi publicada em 2008 – a série da Netflix foi lançada há uma semana. E tudo continua como sempre foi, exceto que não se conhece o sucessor do invisível Coe. Parece invisível.

Como já disse, a série é mais voltada para a sensibilidade do público americano. Fica, talvez um pouco longa para outros públicos, pelos detalhes e uns tantos personagens que não conhecemos e não nos interessam muito. Mas ela tem grande interesse em outros níveis. O El País noticiou há poucos dias a chegada ao Brasil da organização Capitol Ministries – a que pertence o vice-presidente e pastor americano, Mike Pence (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/12/politica/1565621932_778084.html?fbclid=IwAR1YIjfeNMWNC4TxqXZdd-mgZTDMeqqqGJVCR8YpTUDdqpsRSqE8_lk2kwQ). Parece muito a mesma história, o que torna a série ainda mais interessante de se ver.

Para mim, além ou exatamente por todas essas questões, a série me impactou pelo que não está nela, mas em que ela me fez pensar. Começando por esse denúncia, muito justa e oportuna, como se vê, mas que ao mostrar o exagero fundamentalista, naturaliza a religião mais branda que permeia o Estado – está na famosa constituição americana – e contamina todo o espectro político. Nos Estados Unidos é, e sempre foi, o protestantismo, com suas milhares de denominações. No Brasil, foi historicamente a Igreja Romana, mas o avanço da própria laicidade – que acompanhou a nossa redemocratização – tirando alguns espaços daquela igreja, os abriu para a “terceira onda pentecostal” e sua ascensão à mídia e às instituições políticas (ainda está faltando um ministro do STF evangélico ou ele é invisível, como na série?). Tem sido fácil, pois boa parte dessa ideologia é comum: afora umas querelinhas com a mãe de Cristo, protestantes e católicos são todos filhos do deus único. E há até a Renovação Carismática, uma espécie de Contra Reforma contemporânea que adota os milagres à la carte que distinguem o pentecostalismo para poder sobreviver. No mundo, essa associação da ideologia mais pura com a política, sob a forma de um autoritarismo cristão e fascista, está presente em toda parte, da América Latina à África, da Índia aos países árabes (ainda que tenha que reduzi-los a escombros) e no leste da Europa.

Diante do cristianismo e, em boa medida – a série mostra bem isso – da identificação entre os que creem num só deus, a ideologia revolucionária, emancipadora, se encolheu, se marginalizou para além até dos espaços que lhe foram retirados nos últimos 50 anos. Parece mesmo que as ovelhas seguem os reis lobos, literalmente fantasiados de pastores, e já não se conseguem  organizar. No Brasil, a esquerda se empoou com traços liberais para entrar no baile, mas nunca esteve na lista de convidados. Os partidos ou organizações marxistas – que los hay, los hay... – não estão mais alojados nos ambientes proletários. Ao contrário, lá quem entrou foi o pentecostalismo, o crime e, mais raramente, a polícia. Os marxistas não têm mais  importância real, hoje somos só o bicho papão que se usa, com outros espantalhos, para escandalisar democratas e distrair a patuleia.

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