The Family – Democracia Ameaçada
Netflix, 5 episódios de 50 minutos, em média, cada um.
Uma série documental (docussérie?) baseada na investigação e no livro escrito por
Jeff Sharlett (The Family: The Secret Fundamentalism at the Heart of
American Power) sobre uma organização protestante de direita que permeia o governo americano.
Como narrativa, é bem televisiva, se se pode dizer isso, e americana. Um documentário
ficcionalizado e espetaculoso, mas que vai tão fundo quanto possível, acho, na
investigação e denúncia de uma organização secreta e subterrânea – na verdade
escondida à vista de todos. E cujo tratamento também é muito dirigido a um
público americano, não só por ser amplamente majoritário na Netflix, mas porque
o filme carrega em si uma contradição básica – para nós, os outros, para a
alteridade terceiromundista vista lá de cima – que consiste em criticar uma
ideologia extremista a partir de outra ideologia, que naturaliza, toma por
normal, a supremacia soft do
liberalismo americano de consumo interno, seu aparato cívico-militar - que já
lembra bem uma estétca nazista - e seu corolário de intervencionismo e violência
internacional.
É notável o trabalho de pesquisa, integrando materiais
de arquivo com discursos dos principais nomes da Família – especialmente Doug
Coe – e um grande número de participantes e também de críticos da congregação. A série mostra o
processo de cooptação que, como fui verificar no bem informativo verbete da Wikipedia, “Pentecostalismo”, e oomo também
é explicado por um pastor crítico do grupo, remete aos princípios fraternais do início do cristianismo, mas também do pentecostalismo, que exige um renascimento
provocado por uma violenta humilhação catártica, da qual o sujeito sai
“renascido”.
A Família mantém diversas casas suntuosas - em estilo
colonial americano, claro - para várias finalidades: para alojar os jovens “em
formação”; para formar as meninas, separadamente, que serão suas esposas
subservientes; para reunir e “trabalhar” novos parlamentares que chegam ao Congresso;
para hospedar presidentes, ditadores e outros líderes de todo jaez em ambiente
do mais luxuoso cristianismo estadunidense. E isso não é ironia, hein, está lá,
ao vivo.
Se no Brasil nos familiarizamos com a Teologia da
Prosperidade de Edir Macedo e outros, a Família é baseada numa Teologia do
Poder. Sua concepção do cristianismo é a do Rei Lobo, como explica a série:
Cristo ama os poderosos e através deles deve mudar o mundo. As ovelhas? Bem,
elas seguirão o lobo – de medo mesmo. De fato, não importa se esses líderes são
pecadores, criminosos, assassinos. Deus Ama a todos e faz sua obra particularmente
através de homens imperfeitos. Desde o fundador da seita, anterior ao Doug Coe
que a dirigiu nos últimos 50 anos, seus líderes admiram, se espelham e falam
disso publicamente, na lealdade inspiradora das organizações nazistas e na
invisibilidade eficiente da irmandade da Máfia italiana.
O método da Família é a influência subreptícia, ou como
preferem, invisível. Eles chegam nos poderosos só para falar de Cristo, o resto
são decorrências. Sobre as quais nunca assumem responsabilidade. Por exemplo:
rezaram bastante com os líderes de Uganda, com os quais partilham a concepção
da família tradicional; foi pura coincidência que, em seguida, aquele país
adotasse a pena de morte para os homossexuais. Caso mais grave do que a da
Romênia, em que – após visitas de um senador da seita, apenas para orar pela
família – foi proposto um referendo para mudar a constituição, que tratava do
casamento como uma “união de cônjuges” (assim mesmo, com “ju” no meio), para “união
de homem e mulher”. Um referendo nacional só para isso! Perderam feio, graças
a... um povo mais informado.
O instrumento principal desse método de influência é
uma grande reunião anual para oração – o Café da Manhã Nacional da Oração
(National Prayer Breakfast). Um regabofe enorme, que ninguém sabe quem
organiza, quem paga – só que sabem, e é a Família (o que envolve ilegalidades
com dinheiro) – mas todos que são convidados vão. Desde 1953, todos os
presidentes americanos foram. O que remete à questão da separação entre Igreja
e Estado. E, sobretudo, nos permite ver a importância, o papel e o lugar da
ideologia na construção da “democracia” que nos vendem como exemplar.
Bom, não sei se isso é spoiler, como gostam de dizer – afinal trata-se de história, de
fatos, e não de narrativa -, mas o grande líder da seita, Doug Coe, morreu em
2017; a denúncia de Sharlett foi publicada em 2008 – a série da Netflix foi
lançada há uma semana. E tudo continua como sempre foi, exceto que não se
conhece o sucessor do invisível Coe. Parece invisível.
Como já disse, a série é mais voltada para a
sensibilidade do público americano. Fica, talvez um pouco longa para outros
públicos, pelos detalhes e uns tantos personagens que não conhecemos e não nos
interessam muito. Mas ela tem grande interesse em outros níveis. O El País noticiou há poucos dias a
chegada ao Brasil da organização Capitol Ministries – a que pertence o
vice-presidente e pastor americano, Mike Pence (https://brasil.elpais.com/brasil/2019/08/12/politica/1565621932_778084.html?fbclid=IwAR1YIjfeNMWNC4TxqXZdd-mgZTDMeqqqGJVCR8YpTUDdqpsRSqE8_lk2kwQ). Parece muito a mesma história, o que torna a série
ainda mais interessante de se ver.
Para mim, além ou exatamente por todas essas questões,
a série me impactou pelo que não está nela, mas em que ela me fez pensar.
Começando por esse denúncia, muito justa e oportuna, como se vê, mas que ao
mostrar o exagero fundamentalista, naturaliza a religião mais branda que
permeia o Estado – está na famosa constituição americana – e contamina todo o
espectro político. Nos Estados Unidos é, e sempre foi, o protestantismo, com
suas milhares de denominações. No Brasil, foi historicamente a Igreja Romana,
mas o avanço da própria laicidade – que acompanhou a nossa redemocratização –
tirando alguns espaços daquela igreja, os abriu para a “terceira onda
pentecostal” e sua ascensão à mídia e às instituições políticas (ainda está
faltando um ministro do STF evangélico ou ele é invisível, como na série?). Tem
sido fácil, pois boa parte dessa ideologia é comum: afora umas querelinhas com
a mãe de Cristo, protestantes e católicos são todos filhos do deus único. E há
até a Renovação Carismática, uma espécie de Contra Reforma contemporânea que
adota os milagres à la carte que
distinguem o pentecostalismo para poder sobreviver. No mundo, essa associação
da ideologia mais pura com a política, sob a forma de um autoritarismo cristão
e fascista, está presente em toda parte, da América Latina à África, da Índia
aos países árabes (ainda que tenha que reduzi-los a escombros) e no leste da
Europa.
Diante do cristianismo e, em boa medida – a série
mostra bem isso – da identificação entre os que creem num só deus, a ideologia
revolucionária, emancipadora, se encolheu, se marginalizou para além até dos
espaços que lhe foram retirados nos últimos 50 anos. Parece mesmo que as
ovelhas seguem os reis lobos, literalmente fantasiados de pastores, e já não se
conseguem organizar. No Brasil, a
esquerda se empoou com traços liberais para entrar no baile, mas nunca esteve
na lista de convidados. Os partidos ou organizações marxistas – que los hay, los hay... – não estão mais
alojados nos ambientes proletários. Ao contrário, lá quem
entrou foi o pentecostalismo, o crime e, mais raramente, a polícia. Os
marxistas não têm mais importância real,
hoje somos só o bicho papão que se usa, com outros espantalhos, para
escandalisar democratas e distrair a patuleia.
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