terça-feira, 13 de agosto de 2019


Sintonia

Série brasileira produzida pela Netflix. A produtora é uma Losbragas, que já tinha feito Samantha, outra série para a mesma fornecedora de streaming. A ideia (argumento?) é de Kondzilla, nom de plume do proprietário do portal e do canal de mesmo nome. O portal, com cerca de 1 milhão de inscritos se proclama o maior saite de funk do mundo, e abre espaço para vários MCs do gênero.

E é sobre isso mesmo a série, até agora com 6 episódios de 52 minutos. Primeira temporada que, como a maioria das séries, tem um final possível mas que permite, e até propõe, uma continuação. A narrativa depende da recepção, analizada tão profundamente quanto possível pelos misteriosos algoritmos da Netflix. Aliás, é isso que decide sobre a produção e apresentação, ao público mundial (majoritariamente norteamericano) das séries de todas dessas empresas de streaming. No Brasil virtual, dividido maniqueisticamente mas sem nenhuma organização política e social correspondente, um produto como O Mecanismo, uma dramatização exemplar – no sentido do melodrama – de fatos reais interpretados por um bem sucedido produtor de espetáculos, passou a ser considerada uma traição, um ataque à verdade e aos interesses do povo. Mas era só mais uma série da Netflix, para um público, sei lá, de mais de 70% de norte-americanos. De forma análoga, Democracia em Vertigem, um documentário sem novidades que expressava um ponto de vista um pouco mais progressista – com pretensões de obra autoral – virou obra-prima e libelo de liberdade. Nada disso importa – ou incomoda – a Netflix, que se sente à vontade para distribuir The Great Hack, vibrante documentário sobre a manipulação do público pelos algoritmos, que é justamente a base essencial da sua atividade. Aliás, também não suscitou muita conversa na internet – apesar do Brasil ser um dos casos abordados.

Sintonia conta a história de três amigos de infância, dois rapazes e uma garota, entrando na maioridade e caindo na real da vida. São originários da favela, um pouco edulcorada como um ambiente mais de classe média que outra coisa – e parte das favelas é assim mesmo, ainda mais que os personagens centrais são um filho do dono da venda local, o outro já num estágio avançado de envolvimento com o crime e a menina, menos verossímel nesse sentido, que também tem seu próprio negócio, mas bem precário, de camelô. Dinheiro não é bem um problema nessa favela, é mais uma solução.

Num outro sentido, os personagens evoluem numa atmosfera bem plausível: um busca fama e dinheiro como estrela do funk; outro vai fazendo carreira no crime, e a garota se encontra, também, numa mistura de carreira e de crença numa igreja evangélica. Os diálogos são notáveis, no sentido de que expressam um registro da língua brasileira que constitui um verdadeiro dialeto, possivelmente em grande parte incompreensível por alguém menos antenado. O espectador não pode moscar. Como toda gíria, de maneira geral essa linguagem vem das cadeias, do crime, e é bem machista, homofóbica, expressando um moralismo bem senso comum. Ao mesmo tempo, carrega uns valores meio desvirtuados de solidariedade “de classe” – mas essa classe é uma corporação de bandidos muito cruéis. A série, claro, passa um pouco de verniz nessa história e, especialmente a garota, é uma mulher vigorosa e autônoma, o que, afinal, pode ser: acontece cada vez mais. Mas inteiramente dentro do sistema: ela passa de uma mentalidade empreendora, de mascate, à busca de sucesso pela instituição religiosa (e não pela religião propriamente).

A música de Sintonia vai mais na linha do funk ostentação, mas mistura a vida da favela, referências ao crime, refletindo os mesmos valores da linguagem do cotidiano dos personagens. Não sei a qual distância devo atribuir minha total incompatibilidade com esse tipo de música: de geração (só conheci o funk brasileiro depois de velho) ou de formação (não consigo gostar da batida repetida e das letras simplistas e reacionárias).

O que mais me tocou na série foi – considerando as fórmulas melodramáticas a que me referi mais acima e que sempre constituíram o elemento de atração do público audiovisual – essa expressão de valores e comportamentos que consegue em boa medida retratar o ambiente mais popular, majoritário, da juventude brasileira hoje. Massacrada e massificada, ela vive no meio de uma violência generalizada e naturalizada, que oferece um dos caminhos possíveis, o crime. Num outro campo – que se enraíza nessa mesma violência e desgraça para progredir – a religião, espaço de fuga e alienação para a maioria, rota para o sucesso e a riqueza para os mais empreendedores. A terceira forma de alienação é o sonho, o “sonho brasileiro” de ficar rico e famoso com a música ou o futebol. Todas essas alternativas só conduzem a um mundo pior, sem questionar a violência, mas adaptando-se a ela; sem questionar a alienação, mas louvando-a em bailes e cânticos. Reproduzindo a sua própria exploração.

Sintonia, que se refere a uma forma de omertà no crime organizado brasileiro, é também a marca da amizade inquebrantável dos três jovens unidos em meio a essa dura realidade. Na verdade, também vejo uma sintonia notável entre esse universo dramático e o governo do energúmeno Bolsonaro. O estado das coisas no Brasil hoje é um efeito dessa repetição sem fim de becos sem saída produzidos pela miséria – material e espiritual – de uma cultura de exploração voraz do povo, de violência endêmica marcada até hoje pelos sinais da escravidão. Essa forma de fascismo à brasileira, evangélico e militar, que hoje ocupa Brasília, é outro aspecto da nossa realidade que a série, evidentemente, não abarca. É só uma série da Netflix, tá ligado?

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